Rio Grande do Sul fecha contas aparentes no azul, mas déficit real ajustado expõe fragilidades fiscais

O Rio Grande do Sul encerrou o último ciclo orçamentário apresentando um cenário fiscal que, embora aparente equilíbrio em uma análise superficial, revela fragilidades importantes quando observados os números ajustados. O Estado fechou as contas com resultado positivo no cálculo tradicional, mas, ao descontar receitas extraordinárias e efeitos temporários, o balanço aponta um déficit orçamentário ajustado de aproximadamente R$ 4,7 bilhões, evidenciando dificuldades estruturais ainda não superadas.

O contraste entre o resultado nominal e o ajustado está diretamente ligado à composição das receitas e despesas do período. No resultado bruto, entram recursos que não se repetem regularmente, como ingressos financeiros pontuais e ajustes contábeis autorizados por normas fiscais específicas. Esses mecanismos ajudam a cumprir metas legais e a manter compromissos em dia, mas não refletem, de forma plena, a capacidade do Estado de sustentar suas despesas correntes com receitas permanentes.

Quando esses fatores são retirados do cálculo, o déficit ajustado surge como um indicador mais fiel da realidade fiscal. Ele demonstra que, sem o apoio de receitas excepcionais ou flexibilizações temporárias, o orçamento estadual ainda opera no vermelho. Esse cenário reforça a percepção de que o equilíbrio das contas públicas segue dependente de medidas extraordinárias e de um contexto econômico favorável, o que limita a margem de manobra do governo.

Entre os elementos que pressionam o orçamento estão despesas obrigatórias de grande peso, especialmente aquelas relacionadas à folha de pagamento, aposentadorias e pensões. Apesar de esforços recentes para controlar o crescimento desses gastos, eles continuam consumindo parcela significativa das receitas, reduzindo a capacidade de investimento do Estado e dificultando ajustes mais profundos.

Outro fator relevante é o impacto de gastos excepcionais associados a eventos climáticos severos que atingiram diversas regiões gaúchas. As despesas com reconstrução de infraestrutura, apoio a municípios e assistência à população afetada foram necessárias e urgentes, mas ampliaram a pressão sobre as contas públicas. Embora parte desses gastos seja tratada fora do limite fiscal convencional, seu efeito sobre o caixa estadual é concreto e duradouro.

A adesão a mecanismos de renegociação e alívio temporário da dívida também teve papel central no resultado apresentado. Essas medidas permitiram ao Estado ganhar fôlego financeiro no curto prazo, evitando desequilíbrios mais graves e atrasos em pagamentos. No entanto, seus efeitos são transitórios e, quando excluídos da análise, expõem um déficit estrutural que segue como desafio central da política fiscal gaúcha.

Especialistas em finanças públicas avaliam que o cenário exige cautela na leitura dos números oficiais. O resultado positivo nominal indica avanços na gestão e no controle das contas, mas não deve ser interpretado como solução definitiva. O déficit ajustado aponta para a necessidade de reformas mais profundas, capazes de alinhar receitas recorrentes a despesas permanentes.

O desafio do Rio Grande do Sul, portanto, é transformar ajustes temporários em equilíbrio duradouro. Isso passa por ampliar a base de arrecadação, revisar gastos obrigatórios, fortalecer o planejamento de longo prazo e reduzir a dependência de receitas excepcionais. Sem essas medidas, o Estado continuará vulnerável a choques econômicos e climáticos, mantendo um cenário fiscal que alterna sinais de melhora com alertas persistentes sobre sua sustentabilidade.

JORNAL RIO GRANDE DO SUL

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